True Lies
Eu volto. Eu sei que todas as noites e todos os dias você finge, mas eu sempre volto.Acha que não sei que as lingeries que veste fingindo me esperar nunca foram compradas com meus desejos no seu pensamento ou com o propósito de me seduzir?
O batom vermelho, os lençóis limpos e perfumados – pensa que não sei que outra boca encosta nesses lábios e que os lençóis limpos só escondem a luxúria espalhada naqueles que estão à espera da água purificadora?
Não... não pense que me iludo achando que a taça envolta em meus dedos agora nunca encheu as mãos de outro... Não sou tão tolo... Mas mesmo assim eu a seguro. Eu bebo do mesmo vinho com que banhas outras gargantas, o mesmo com que embriagas outras presas – e me farto.
Sinto tua pele recém percorrida pela navalha, lisa, macia, perfumada, pensando no quanto contribuo para que sempre esteja assim pronta para todos; te dou presentes, te encho de tudo o que mais gosta, mesmo sabendo que não é por mim ou para mim que te prepara ardilosamente.
Eu volto – mesmo sabendo que você me engana, eu volto.
Volto porque sei que todos os seus gritos são falsos – sei que teu prazer não é verdadeiro. Volto por saber que todas as vezes que a vejo cravar nos lençóis as unhas esmalatadas em vermelho, morder o travesseiro escondendo o rubor da sua descarada face ou abafando os urros de falso deleite você está apenas no segundo ato da sua encenação.
(Enquanto balança os quadris me encarando felinamente meus olhos te dizem o que minha boca nunca pronunciará: quebre a perna! Seu sucesso na dramatização é minha glória).
Eu volto porque mesmo assim, fingindo, você é obediente, minha putana. Vai, assim... Faz como eu mando... Fica de quatro porque eu quero te ver... bem-mandada.
Faz prá mim, faz... aquela cara de quem ta gostando, faaaaaz... Mas vê só se for "bem-feito" porque não é à toa que escondo meus - verdadeiros - olhos sobre tuas costas; ainda sou aluno na arte da dramatização.
Vamos, grita! Me pede pra te segurar com força pelos cabelos, vai implora! Talvez assim eu esqueça do seu teatrinho e também finja acreditar que você esta mesmo gostando.
Se me aproveito das tuas mentiras é porque assim fica mais fácil voltar todos os dias e te tratar como merece, sua farsante dissimulada.
Sugo até ultima gota desse líquido maldito – me alimento desse néctar que se torna fel quando me despeço. O amargo que fica impregnado na minha língua durante todo dia é o que me faz voltar.
Ah, mas não estraga tudo agora com esse pinguinho de verdade, não... Finge só mais um pouquinho... Deixa-me ver a hipocrisia desvelada nas tuas pupilas retidas – não me decepciona agora!
Teu espetáculo também me permite ocultar minhas verdades sem culpa.
Vamos, grita – mas grita como urram as feras, para que eu esqueça que de fato o que eu gostaria era que você estivesse sentindo.
Encanta-me te ver fingindo pra mim.
Mente de verdade; mente com sinceridade, que assim talvez eu te dê o presente de um afago depois do gozo.
Se teu espetáculo me convencer, talvez eu consiga continuar voltando e te fazendo crer que realmente não te quero – e que é por isso que eu venho.
Não... não te preocupa com fatores morais... Ora... Se a capacidade dos hominídeos de mentir é percebida tão cedo, e é quase universalmente inerente ao desenvolvimento humano, você não será considerada pecadora. Fique tranqüila, pois meu código ético determinou que tua verdade não é necessária – no que se refere a você, sou adepto ao pragmatismo, considerando como verdadeiro aquilo que mais contribui para o meu bem-estar. Nesse caso: tua falsidade.
É por isso que eu volto; saber que é pra mim e por mim que você finge todas as noites, sua Peça só entra em cartaz e suas cortinas só se abrem quando eu chego. Eu volto pelas tuas mentiras sinceras; porque você me convence diariamente de que acredito que só volto pelas tuas mentiras.
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